A descendência de Loki: lobo, serpente, Hel e um cavalo
Quatro filhos, duas genealogias diferentes e um castigo que fecha o ciclo.
Boa parte das criaturas mais temidas da mitologia nórdica descende de uma única figura. Organizar essa genealogia ajuda a entender por que Loki ocupa posição tão ambígua nos textos: ele é ao mesmo tempo companheiro dos deuses e origem de seus adversários.
Os filhos com Angrboða
A Edda em Prosa apresenta três filhos de Loki com a giganta Angrboða: o lobo Fenrir, a serpente Jörmungandr e Hel. Os três são afastados preventivamente pelos deuses, cada um de um modo, e os três reaparecem no Ragnarök.
Hel recebe autoridade sobre os mortos que não caem em combate, e o texto descreve seu aspecto meio escuro, meio da cor da carne. Ela não é uma divindade da morte violenta, e essa distinção importa.
Sleipnir, um caso separado
Sleipnir tem outra origem. Snorri narra que, para sabotar o acordo com um construtor gigante, Loki assume a forma de uma égua e atrai o garanhão Svaðilfari. Do encontro nasce o cavalo de oito pernas, que é entregue a Odin e descrito como o melhor entre os cavalos.
O episódio é um dos vários em que Loki muda de forma e de papel, o que nas fontes é característica definidora do personagem, e não exceção.
Loki e a morte de Baldr
O ponto de virada na relação entre Loki e os deuses é o episódio da morte de Baldr, em que ele participa do plano que leva à morte do filho de Odin e depois impede seu retorno. É esse ato que desencadeia sua punição.
O castigo
As fontes descrevem Loki capturado e amarrado em uma caverna, com uma serpente gotejando veneno sobre seu rosto. Sigyn, sua esposa, recolhe o veneno em uma bacia, e os tremores de terra são explicados pelos momentos em que ela precisa esvaziá-la.
O relato acrescenta que as amarras foram feitas a partir das entranhas de um de seus filhos, detalhe brutal que Snorri registra com concisão. Loki permanece assim até o Ragnarök, quando se liberta e toma o lado dos adversários dos deuses.
O que é releitura moderna
A caracterização de Loki como deus do fogo é bastante difundida e não encontra sustentação nas fontes; ela deriva de propostas etimológicas antigas hoje consideradas frágeis. Também não há nas Eddas a ideia de Loki como irmão de sangue de Thor, embora ele seja companheiro frequente de suas viagens.
- Fonte antiga: Fenrir, Jörmungandr e Hel como filhos de Loki com Angrboða.
- Fonte antiga: Sleipnir nascido de Loki em forma de égua, em episódio distinto.
- Fonte antiga: aprisionamento após a morte de Baldr, com a bacia de Sigyn.
- Camada moderna: Loki como divindade do fogo e como irmão de Thor.
Fontes consultadas neste guia
- Snorri Sturluson, Edda em Prosa, Gylfaginning, 34, 42 e 50
- Lokasenna, prosa final
- Völuspá
- Baldrs draumar