Antes do kraken: a hafgufa e o animal confundido com uma ilha
O Espelho Real, escrito no século XIII, descreve o monstro marinho sem usar o nome que ficaria famoso.
O kraken é geralmente apresentado como criatura da mitologia nórdica antiga. A rigor, não é: o nome não aparece nas Eddas nem nas sagas mais antigas. O que existe, e é bem documentado, são descrições de monstros marinhos gigantescos em textos noruegueses e islandeses medievais.
O Espelho Real
A fonte central é o Konungs skuggsjá, obra norueguesa de meados do século XIII escrita em forma de diálogo, em que um pai instrui o filho sobre comércio, navegação e as maravilhas dos mares do norte. Entre os animais descritos está a hafgufa.
O texto a apresenta como o maior de todos os animais do mar, tão grande que marinheiros a tomam por ilha ou por terra firme. Descreve seu método de alimentação: ela ergue partes do corpo acima da água, atrai peixes e depois se fecha sobre eles.
O mesmo texto menciona o lyngbakr, cujo nome remete a urze e dorso, outra criatura confundível com ilha. A obra é cuidadosa em sinalizar quando está no terreno do incerto.
A saga de Örvar-Oddr
A hafgufa aparece também em uma saga islandesa de aventuras, em contexto de viagem extraordinária. É importante notar o gênero: sagas desse tipo eram entretenimento heroico, com liberdade narrativa considerável, diferentes das obras que pretendiam instruir sobre navegação real.
O que essas fontes não dizem
Nada nesses textos descreve tentáculos, braços que agarram mastros ou um cefalópode. A hafgufa é grande, é perigosa por seu tamanho e pela confusão que causa, mas sua anatomia não é detalhada. A associação com lulas é posterior e vem de outro contexto.
Também não há nas fontes medievais a ideia de um monstro que afunda navios deliberadamente. O risco descrito é o de ancorar sobre o animal ou navegar sobre ele.
O que é releitura moderna
A imagem do kraken como polvo colossal que abraça embarcações se forma no século XVIII e ganha força na ilustração dos séculos XIX e XX. Atribuí-la a vikings ou a textos éddicos é um erro de atribuição frequente, inclusive em textos de divulgação.
- Fonte medieval: hafgufa e lyngbakr, animais enormes confundidos com ilhas.
- Fonte medieval: motivo do animal-ilha presente também em textos cristãos irlandeses.
- Camada moderna: tentáculos, ataque a navios e o nome kraken, todos posteriores.
Fontes consultadas neste guia
- Konungs skuggsjá (Espelho Real), c. 1250
- Örvar-Odds saga
- Navigatio Sancti Brendani Abbatis
- Bestiários medievais latinos, entradas sobre animais marinhos