Kraken: Pontoppidan e o monstro que entrou nos livros
Um bispo norueguês do século XVIII colocou a criatura em uma obra de história natural, com depoimentos de pescadores.
O kraken deve sua fama a um gênero inesperado: a história natural setecentista. Não foi a poesia que o consolidou, mas uma obra que pretendia catalogar a fauna real de um país.
A obra de Pontoppidan
Erik Pontoppidan, bispo de Bergen, publicou na década de 1750 uma história natural da Noruega em que reúne geografia, clima, minerais, plantas e animais. Na seção dedicada aos animais marinhos ele trata do kraken, ao lado da serpente marinha, com base em depoimentos de pescadores e navegantes.
A descrição retoma o motivo antigo: um corpo tão vasto que parece um conjunto de ilhotas, capaz de provocar redemoinhos ao submergir. Pontoppidan menciona braços ou pontas erguendo-se acima da superfície, elemento que começa a aproximar a criatura dos cefalópodes.
É importante entender o método da época. Coletar testemunhos locais e registrá-los com ressalvas era procedimento aceito em obras de história natural, muito antes da consolidação de padrões modernos de verificação.
Denys de Montfort e o polvo colossal
No início do século XIX, o naturalista francês Pierre Denys de Montfort dedicou atenção a relatos de cefalópodes gigantescos em sua obra sobre moluscos e propôs a existência de um polvo colossal capaz de atacar embarcações. Suas conclusões mais extremas foram rejeitadas pelos contemporâneos e prejudicaram sua reputação.
Ainda assim, foi essa etapa que fixou a forma de cefalópode na imaginação europeia. A gravura de um polvo enorme envolvendo um navio, muito reproduzida depois, pertence a essa linhagem.
Do relato à literatura
Ao longo do século XIX, o tema migra para a literatura e para a poesia, que consolidam a imagem do monstro adormecido nas profundezas. Essas obras são documentos da recepção do tema, não fontes sobre crenças nórdicas antigas.
O que é releitura moderna
Vale separar três camadas que costumam ser confundidas: o monstro medieval confundido com ilha, o animal descrito em obras de história natural setecentistas com base em testemunhos, e o polvo colossal da ilustração e da ficção. Os três se chamam kraken hoje, mas não são a mesma coisa.
- Fonte setecentista: kraken como animal marinho descrito a partir de depoimentos de pescadores.
- Etapa seguinte: proposta de um cefalópode colossal, rejeitada pelos naturalistas da época.
- Camada moderna: consolidação visual do polvo que ataca navios.
Fontes consultadas neste guia
- Erik Pontoppidan, História Natural da Noruega (1752-1753)
- Pierre Denys de Montfort, História natural geral e particular dos moluscos (1801-1802)
- Konungs skuggsjá (Espelho Real), c. 1250