A Grande Esfinge de Gizé: atribuição, areia e o nariz perdido
Uma estela real narra a limpeza do monumento, e um relato medieval descreve sua mutilação.
A escultura monumental do planalto de Gizé é a esfinge mais conhecida do mundo e, ao contrário da esfinge grega, não propõe enigmas. Sua função é outra: encarnar o soberano em corpo de leão, com o poder que a combinação sugere.
O que é uma esfinge egípcia
A esfinge egípcia padrão é masculina e reúne corpo de leão com cabeça humana adornada com insígnias reais. Existem variantes com cabeça de carneiro, associadas a Amon e dispostas em avenidas processionais, e com cabeça de falcão, ligadas a Hórus.
Essas figuras funcionam como guardiãs de espaços sagrados e como afirmação da autoridade real, sem qualquer traço de criatura hostil a ser vencida.
A atribuição
A hipótese mais aceita relaciona a Grande Esfinge ao complexo funerário de Quéfren, da quarta dinastia, por razões de posição, alinhamento e associação com o templo do vale. Outras propostas de atribuição existem e continuam sendo discutidas na egiptologia.
A escultura foi talhada no substrato rochoso do próprio planalto, e não erguida em blocos, o que condiciona sua forma e explica parte dos problemas de conservação.
A estela do sonho
Entre as patas dianteiras está uma estela erguida por Tutmés IV, do Reino Novo. O texto narra que o rei, então príncipe, adormeceu à sombra do monumento e recebeu em sonho o pedido de que a areia fosse removida.
A estela é evidência de duas coisas: o monumento já era muito antigo e já estava parcialmente soterrado, e havia culto ativo associado a ele, sob o nome que remete a Hórus no horizonte.
O nariz
A ausência do nariz é frequentemente atribuída a tiros de canhão de tropas napoleônicas. A explicação não se sustenta: desenhos e descrições anteriores à expedição francesa já mostram o rosto sem o nariz.
Existe registro documental bem mais antigo. Um historiador egípcio do início do século XV relata que um homem havia mutilado o rosto do monumento por motivação religiosa, por considerar objeto de veneração indevida, e que foi punido por isso.
A barba cerimonial também se desprendeu, e fragmentos atribuídos a ela estão em coleções de museu.
O que é releitura moderna
Propostas que atribuem à esfinge idade muito superior à cronologia egípcia estabelecida, com base em interpretações de erosão, não encontram apoio no conjunto das evidências arqueológicas e não são aceitas pela egiptologia. Também não há qualquer registro antigo de câmaras secretas com arquivos sob o monumento.
- Fonte material: escultura talhada na rocha do planalto, associada ao complexo de Quéfren.
- Fonte escrita: estela de Tutmés IV sobre a remoção da areia e o culto ao monumento.
- Fonte medieval: relato de mutilação do rosto por motivação religiosa no século XV.
- Sem apoio: datação alternativa muito antiga e câmaras secretas com arquivos.
Fontes consultadas neste guia
- Estela do Sonho de Tutmés IV, Gizé
- Grande Esfinge de Gizé, planalto de Gizé
- Relatos historiográficos egípcios do século XV sobre a mutilação do monumento
- Avenida de criosfinges de Karnak